PRESERVAÇÃO DA CULTURA INDÍGENA NO SUL DO BRASIL

Entrevista por Gabriela Da Costa Franarin et Katiana Ribeiro

Xadalu Tupã Jekupé é um artista mestiço, especialista em arte urbana, que utiliza elementos da serigrafia, pintura, fotografia e objetos para enfrentar a tensão entre a cultura indígena e a cultura ocidental nos centros urbanos. Seu trabalho e mais particularmente suas conversas com sábios ao redor do fogo são hoje um dos mais poderosos recursos das artes visuais para lutar contra o apagamento da cultura indígena no Rio Grande do Sul.


🟢 Dento da temática dos direitos culturais em ação, tu podes nos contar um pouco sobre a tua história de vida, relacionando com a com a tua origem indígena, e de como tu te apresentas como um artista mestiço e da cultura urbana que influenciou a tua obra.

Eu sou o Xadalu Tupã Jekupé, sou artista mestiço, eu nasci na cidade do Alegrete, que fica geograficamente a oeste, no Rio Grande do Sul. Alegrete tem o nome da antiga terra de Ararenguá, onde viviam cinco etnias, os Mbones, os Jaros, os Charruas, os Minuanos e os Guarani Mbya. Essas etnias viviam naquela região na região do Alegrete, e viviam na beira do rio. A minha infância foi toda na beira do rio. Eu vim de uma família matrilinear, que são trisavó, bisavó e vó, onde foi mantido, até a linha da minha trisavó todos os costumes da cultura indígena. A minha vó viveu com a minha trisavó, então ela me conta com detalhes os costumes e o modo de vida daquela época, em torno de 1948 e 1950, quase na fronteira oeste, na cidade do Alegrete Falando sobre a parte ancestral, eu acho que dentro disso (gostaria de citar que neste momento estou na residência artística da Frances Reynolds, no Instituto Inclusartiz e vou tratar deste tema numa obra chamada “Antes que se apague” que também fala sobre esta relação, onde eu faço uma obra na cidade onde eu nasci, na beira do rio, e trago para cá, para tratarmos como uma videoarte). Além de haver outros trabalhos que vão tratar deste tema, deste assunto sobre a ancestralidade.


Depois eu vim para Porto Alegre, eu era muito novo, com a minha mãe. Acabamos em situação de rua, juntando lixo, trabalhando com reciclagem. Acabamos na periferia, depois eu tive uma breve passagem como gari e neste meio tempo ganhei um trabalho na área da serigrafia. Dentro do trabalho de serigrafia eu já conhecia as pessoas da Street Art, principalmente o Celopax, então já teve um caminho de fazer a arte, mas não no grafite, pois não me atraia muito, me atraía as amizades que eu tinha. Mas me atraia o trabalho com adesivos, que foi me apresentado pelo Marcelo Pax e eu nem sabia o que era isso, porque naquele tempo não tinha internet. A gente começou a fazer a serigrafia de uma maneira por fazer, não se considerava arte, eu nem sabia o que era, eu nunca tinha entrado num museu. Então as coisas começaram de uma maneira muito marginal. Do marginal mesmo, aquele que faz uma coisa porque acha que tem que fazer, sem saber o porquê de estar fazendo. A primeira relação que se faz é do personagem que eu crio, o índio Xadalu e colo milhares pelas ruas de Porto Alegre em menos de um mês. Isso acabou saindo nos jornais. A ideia da figura era de repovoar os espaços com uma cultura que havia sido destruída. Até aquele tempo eu não tinha contato com as comunidades, então quando o Xadalu começa a aparecer em grande escala na cidade a comunidade se vê com curiosidade, o que acaba me levando para a comunidade, onde o trabalho é levado para outro caminho. Meu trabalho já seguia um caminho de muito reconhecimento, pois em dois meses o meu adesivo já estava em mais de 60 países. Também foi muito reconhecido em festivais de arte urbana. Sempre teve um cunho político, mas eu acho que o reconhecimento da comunidade e a convivência e vivencia que eu tenho até hoje fez que o trabalho ganhasse muitas profundidades nas camadas. Há camadas que não acabam mais, entramos em uma camada que nos leva a outra, que nos leva a outra, etc. Isso é muito da cultura guarani, o trabalho se desdobrar no seu próprio desdobramento, e isso não é tão fácil quanto na academia, que as pessoas tendem a dizer que o seu trabalho se desdobra. Não, o desdobramento ele se desdobra nele mesmo mostrando o resultado da comunidade e também o resultado espiritual e cosmológico. Quando a gente vai conversar com um sábio que entende de tudo do mapa astral, como funcionam os espíritos, a gente consegue ver que houve mesmo um desdobramento do trabalho, e não o desdobramento acadêmico.

Onde se usam desculpas par dizer que tudo é arte. O desdobramento do trabalho, primeiramente se busca um desdobramento espiritual e depois ele vai ganhando forma. Minha primeira exposição foi no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul. O que foi muito atípico, pois eu, uma pessoa que nunca estudei na academia, fiz minha primeira exposição no Museu de Arte Contemporânea. Foi uma exposição coletiva, foi muito legal na época o que eu produzi para esta exposição. Tive o apoio do André Venzon. Depois disso o trabalho tomou um caráter muito institucional porque eu vendia adesivos, mas o cunho sempre foi institucional. Porque o institucional acabou absorvendo o meu trabalho. Então, em espaços alternativos eu acho que nunca fiz exposições. Também tenho aquela rebeldia em relação aos espaços alternativos porque eu vim da periferia e os espaços alternativos são normalmente geridos pela classe média. Até hoje eu tenho uma grande dificuldade, principalmente, com os artistas da cidade e também com essa diferença de classes.


Claro que, hoje em dia, a gente competindo e mostrando que está num nível as vezes até acima destes artistas, dessa classe, eles acabam te aceitando, como colegas. Mas quando eu estava lá “ferrado” todo mundo sabia que eu existia, mas ninguém me chamava de colega.

🟢 Povoar as ruas de Porto Alegre com a imagem do “indiozinho” significou o que para ti? Tu esperavas essa repercussão em outros países?

Quando tu começas a fazer algo e esse algo teve uma longa data pois estamos falando de 2002. Temos uma noção diferente à medida que o tempo passa, hoje em dia eu vejo uma coisa que naquela época eu não via. Lá atras eu era recém um cara que estava saindo de um lugar bem desprivilegiado, mas que teve muito aprendizado, não quer dizer que foi ruim. Eu usei toda essa sagacidade e inteligência da periferia, da rua e do lugar que eu vim, do Alegrete, da beira do rio. Toda essa sensibilidade eu coloquei em forma de um adesivo que tomou conta da cidade. Eu pensava mais na maneira de tornar um assunto em pauta, mas eu nem sabia o que era pauta, eu queria deixar algo visível. Era algo que nem tinha nome, era apenas a imagem do indiozinho. Depois surgiu a época das redes sociais e eu nunca aparecia, nunca tinha foto minha. Para mim era tudo novo, se eu falar qualquer coisa que eu acho hoje, eu não pensei naquela época. Eu não tinha essa profundidade que eu consigo ter hoje. Hoje eu sei o que é ressignificar o espaço, eu acho até clichê a palavra subverter, mas era fazer algo que estava presente naquele momento. Relacionar a comunidade indígena que vive no centro de porto alegre, com as memórias da minha bisavó, porque eu consegui viver com a minha bisavó. Hoje em dia tudo se torna mais forte no caminhar junto com a comunidade nessa busca pela ancestralidade e juntamente com as histórias que a minha vó consegue aos poucos retomar, com a lembrança um pouco apagada, que é fruto muito da cultura gaúcha do apagamento etnográfico. Temos grandes distúrbios da comunidade gaúcha com relação as etnias.


Grande ignorância, não estávamos preparados para ter uma discussão étnica, muito menos de gênero, é complexo. Para a gente que trabalha com a pauta cultural e está próximo das pessoas já é difícil se colocar no lugar do outro, e entender o outro. Eu acho que a gente como sociedade gaúcha não estava preparado para a discussão étnica, social nunca esteve e agora temos o debate da questão de gênero. É um momento de tentar se reorganizar, eu acho que é muito difícil, muito difícil mesmo. Mas temos bons exemplos de pessoas que conseguiram entrar no meio e fazer de alguma maneira a história da arte gaúcha. Espero que dê certo.

🟢 Qual a importância da ancestralidade na tua expressão artística? Onde esta questão aparece nas tuas obras?

Eu estava conversando com o Paulo Herkenhoff e ele me colocou uma questão muito interessante, porque o Paulo me estuda há muito tempo. A gente é muito amigo. Ele tem todo mapa da minha família, ele conhece minha mãe, minha avó, eles se gostam. Ele tem um carinho imenso pela minha família. Ele me disse algo muito legal, que para o ser que se autodefine mestiço, o que move ele é a interrogação. O que me move é não saber a que etnia pertencia os meus avós, bisavós e trisavós. Mas é o que me move em buscar, é quase uma epopeia utópica, em buscar o que tu nunca vais saber. Mas tu buscas por acreditar que aquilo é muito maior que tu. Então eu acho que o primeiro passo seria isso. O segundo passo é o convívio com a comunidade, o batismo, a participação nos rituais. De falar um pouco a própria língua e de estar envolvido com sábios da comunidade, os que tem voz ativa, usando a arte a serviço da comunidade também. Isso é muito notável dentro das obras, a gente consegue ver que existe todo um trabalho de convívio mesmo. As pessoas falam que é a minha pesquisa, que é um vício de linguagem, uma palavra usada para tudo que a gente faz. Mas as vezes não é pesquisa, é o que tu estás vivendo mesmo. Porque uma coisa é tu sentares e escutar aquilo, fechar os olhos e imaginar. Outra coisa é tu saíres com um papel escrevendo e anotando tudo. Então eu acho que é o reflexo do trabalho na complexidade e nas camadas do trabalho a gente consegue ver que é o convívio e a vida dentro da comunidade que também fez muito diferença a me levar a procurar o lado ancestral que todos nós temos. Eu me sinto parte da comunidade, e a comunidade sente que eu faço parte dela. É só conversar com muitas lideranças que eles vão comentar isso.

🟢 De que forma os direitos culturais da cultura indígena são representados na tua obra?

Há duas coisas bem distintas que podemos falar, elas vão fugir um pouco do assunto “artes”, mas vão estar junto, que é a educação. Arte e educação estão muito ligadas. A representatividade da cultura indígena marca o ponto inicial das obras indígenas dentro dos museus no Rio Grande do Sul. O movimento que eu fiz junto com a comunidade, porque quando tu fazes um trabalho dentro da comunidade, mesmo sendo um mestiço, a obra é indígena. Os artifícios, as coisas, tudo é feito na comunidade, a comunidade reconhece como uma obra indígena. A gente teve a primeira exposição de obras indígenas em Porto Alegre, a gente teve dentro do acervo da comunidade indígena gaúcha nos dos museus do Rio Grande do Sul, então isso é uma forma de marcar a história. Quando formos procurar nos catálogos, nos arquivos, já vai ter existido. Isso foi uma grande preocupação minha, de como isso vai ser colocado lá no futuro. Com qual qualidade e qual profundidade as obras vão estar lá. Isso é um cuidado muito frequente, tanto que a minha produção ela demora muito, porque a profundidade das obras é muito grande, por isso demora. Consulto uma cacique mulher, uma Kunha Karai que é uma sábia, então vou montando um quebra-cabeça, normalmente para criar uma obra eu demoro entre dois e três anos, mas vou criando outras junto. A da Frances que estou fazendo agora no Instituto Inclusartiz, esta obra demorou três anos, para fundamentar, chegar no trabalho final. Então as obras demoram. Eu vivo com isso e convivo, então muitas coisas vão acontecendo ao longo do tempo na produção, essa é a parte que a gente consegue visualizar fisicamente a presença da arte indígena gaúcha dentro das instituições. E o Xadalu como o primeiro a fazer isso. Porque a Bienal é outra coisa.


Como isso pode ajudar a comunidade, eu acho que vai muito além das artes visuais. As pessoas são muito mal educadas, mal educadas de uma maneira intelectual, do saber de como funciona a engrenagem da nossa sociedade. Por exemplo, o plano de política educacional que a gente tem é um plano político do século passado eu acho. É algo tão retrogrado que hoje a gente vivia ainda no tempo que o índio morava numa oca, andava pelado, quando isso começa a ser ensinado para as crianças, isso é um crime, já é um crime social. As crianças vão estar acostumadas a lidar com o selvagem, que vive na mata sabendo que na rua dos Andradas existe dezenas e dezenas de indígenas. Isso já é algo da raiz educacional, de ter uma política pública, que trate as etnias regionalmente. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, quais as etnias que existem, como eles moram hoje? No livro pode ter uma foto do indígena com o celular. Na foto, ter um indígena no centro de Porto Alegre vendendo artesanato. Eu acho que isso ajudaria muito na quebra do preconceito, principalmente entre as pessoas que tem menos informação. A informação hoje se tornou um bem muito precioso e muito valioso. E a educação também, porque a gente vê que as escolas particulares sempre ocupam os primeiros lugares nos editais das universidades. Claro que às vezes acontece um caso à parte, mas sempre o domínio foi do ensino público e a gente nem tem como culpar as escolas públicas, porque o sistema de educação é tão sucateado, mas eu acho que é um dos primeiros passos, políticas educacionais que obrigassem a ter uma matéria sobre isso. Já existe uma matéria que se encaixaria, que é o “Estudos Sociais” para as crianças, caberia falar sobre a presença do negro, do indígena, e também poderia falar dos japoneses, que na serra têm diversas colônias. Para as crianças isso seria um ganho incalculável. Mas a gente deve procurar a entender melhor a nossa sociedade, seria um ponto inicial para a gente aprender a reconhecer o valor da outra cultura. As vezes parece que a gente só tem uma cultura, mas estamos rodeados de diversas culturas, ainda mais numa cidade como Porto Alegre.

🟢 Atualmente o tema decolonial tem sido pauta nas artes visuais. Tu tens a obra “Invasão Colonial meu corpo nosso Território”, eu queria que tu falasses quanto a arte contribui para um olhar decolonial, para decolonizar de alguma forma as pessoas, ou pelo menos mostrar um novo olhar, estando num espaço institucionalizado, no museu. Gostaria que tu falasses um pouco sobre essa questão.

A obra “Invasão Colonial meu corpo nosso Território” foi baseada nas invasões de milicianos que invadiram a Aldeia Yjere, conhecida como Ponta do Arado. Entre a troca de conversas entre os homens mascarados armados com o cacique, o homem mascarado aponta a arma para o cacique e diz: “Diga as tuas últimas palavras” e o cacique fala que ele pode apontar a arma para ele, mas não pode nunca apontar a arma para aquilo que ele acredita, porque aquilo que ele acredita, ele acredita no sol, nas estrelas, no universo e ninguém nunca vai poder apontar uma arma para isso. Então essas foram longas conversas com meu irmão Karai Tataendy Timóteo, uma liderança muito importante e ele me contou, eu tenho gravado isso, com muitos detalhes dias após a isso acontecer, era tudo muito recente. Aquela obra não demorou tanto, eu fui trabalhando, tem coisas que acontecem no momento, que o momento pede, acho que essa é a função do cidadão que é membro da comunidade, vai mais além do que ser artista.

Dentro da comunidade não existe a palavra artista, existe trabalhador, lá eles me chamam de trabalhador. Há dois jeitos de eu trabalhar, trabalho com a voz, que é algo que a comunidade me ajudou muito. Hoje eu dou muitas palestras, seminários graças a comunidade que lapidou a minha forma de falar. Eu consigo ter uma dicção naquilo que eu estou falando, naquilo que eu conheço. E o trabalhador dos braços, das mãos. Lá a gente fala: “vou trabalhar com as mãos” ou “vou trabalhar com a boca, com a palavra”. Então, há dois tipos de trabalho. Isso é uma obrigação do membro da comunidade. Nesta obra eu fui lá e fotografei a comunidade, e juntamente com um amigo, que tem um estúdio de manipulação digital eu escolhi tudo, escolhi o colete, escolhi a fonte, a gente encaixou digitalmente estes coletes escrito “Guarani Mbya”. Espalhei pela cidade, em pouco tempo foi um grande hit, a obra se desdobra cada vez mais, de uma maneira tão importante, porque ela ganhou o prêmio da Aliança Francesa Porto Alegre de Arte Contemporânea, ganhou o prêmio do Salão Anapolino de Arte, que eram inscritos de todo o Brasil, ela foi pauta de uma mesa da Bienal, que a gente participou. Ela ajudou o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul num leilão, também retornando para a comunidade. E agora ela participa do seminário do MoMa, com a Sandra Benites, minha amiga, e ela vai agora para Londres numa exposição com a Sandra Benites. É uma obra que está bem cotada para outras coisas que temos que esperar acontecer para citar, mas são coisas bem grandes. Tudo que tem de retorno financeiro disso acaba retornando para a comunidade, isso que é importante. Eu não vejo isso como um ato a ser admirado, é algo natural, um membro da comunidade, ajuda a comunidade. Não tem outra forma.

🟢 Quais são as tuas referências no âmbito das questões indígenas e também do próprio campo das artes visuais, que contribuem para o teu trabalho?

Eu acho que cada passo que se dá com pessoas que estão do teu lado te apoiando e é verdadeiro, são alianças que se formam e portais que se abrem. Então, isso é uma coisa muito legítima, que é da vida, não existe outra maneira de se fazer isso, não existe compra, não existe aquela coisa de tentar agradar. Quando as coisas são reais, tu caminha lado a lado com as pessoas e todo mundo evolui junto. Das referências indígenas que eu tenho: Sandra Benites, Carlos Papá, Cristine Takuá, que são curadores indígenas. A Sandra Benites é Guarani Nhandewa, e o Carlos Papá e a Cristine Takuá são da nossa comunidade, que é Guarani Mbya. Dentro desse aspecto que a gente trata como o curador, que para mim são artistas também, eu destaco muito o Karai Mburuvixá Tenondé Cirilo, que é da Aldeia Anhetenguá, em Porto Alegre; o Karai Timóteo, da Aldeia Yjere, em Ponta do Arado; e o Karai Mariano, em São Miguel das Missões. Eu sou muito apegado e ligado espiritualmente às pessoas da minha região, então, eu vou admirar as pessoas que convivem comigo no Rio Grande do Sul. E também posso citar artistas indígenas, por exemplo, o Aldo Kuaray, de Tekoa Ko’enju, que é um ótimo cineasta; a Patrícia Ferreira, minha irmã, que é do Cinema das Aldeias, de Tekoa Ko’enju; e o Ariel Ortega, que fez um filme comigo. Essas são referências para mim porque através dessas pessoas eu convivi. Eu aprendi com a minha mãe isso: a referência é quem está perto de ti, é quem está ligado a ti.

Às vezes, a gente cria referências na academia com pessoas que a gente nem sabe quem elas são, até criando ídolos. A gente cria sonhos em castelo de areia. Dentro da comunidade, a gente valoriza quem é da comunidade mesmo. Nos preocupamos com quem está ao nosso lado. E quem está junto comigo são essas pessoas. Entre outros curadores, tenho muito a agradecer ao Paulo Herkenhoff, uma pessoa que me ajudou muito e segue me ajudando, seja na forma de ver o meu trabalho, seja na maneira de conversar… A própria Frances Reynolds por me trazer para uma residência no Rio de Janeiro [Instituto Inclusartiz] em um tempo tão difícil. Agradeço também ao André Venzon, que foi uma das principais pessoas no Rio Grande do Sul que acreditou no meu trabalho. Para mim, ele é um dos principais visionários da arte contemporânea do Rio Grande do Sul. Importante também destacar o Instituto Maracá, que realizou neste ano o primeiro festival de arte indígena [rec•tyty], do qual eu participei e que teve a curadoria do Ailton Krenak, da Sandra Benites e dos presidentes Cristine Takuá e Carlos Papá. Eles fizeram um movimento inédito no Brasil, e considero que tenha dado muita visibilidade para as comunidades indígenas. Às vezes, o artista não está mais na comunidade, mas a etnia está no nome, então, ele acaba mostrando a comunidade. Foi algo que vi de uma maneira bem bonita acontecer.

🟢 Qual a tua expectativa para a residência artística que fará no Centre Intermondes, em La Rochelle, na França, por ter vencido o 4º Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea?

Eu já tenho pensado o que vou fazer na residência artística na França. O que eu posso adiantar é que vou fazer um resgate histórico na residência e, consequentemente, a ideia é conseguir abrir um portal para ter novas reflexões de lá. Então, será isso: um resgate de um fragmento da história que aconteceu no Rio Grande do Sul. Quero tentar fazer um trabalho que vai falar sobre o tempo e a memória. E a tentativa de uma simulação de um portal. Será mais em uma linha conceitual, mas acho que que será muito sensível e espero que tenha uma boa repercussão. Já venho pensado há muito tempo e espero que tudo se encaixe. Que tentar trazer as obras e expor na Fundação Iberê Camargo, pois já tenho exposição marcada em março de 2022. E também vai ter uma mostra bem grande minha no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, que era para ter ocorrido este ano, mas será no ano que vem. Tu comentaste sobre teus estudos em educação artística indígena, pode nos contar um.

🟢 Tu comentaste sobre teus estudos em educação artística indígena, pode nos contar um pouco sobre essa formação?

Eu faço faculdade por meio do Prouni em artes visuais com ênfase em em educação artística indígena. É a formação social da criança em sala de aula. Aí pretendo misturar com a comunidade. O importante é tu integrar a criança de um modo que ela faça isso porque goste. Tem várias disciplinas. envolvendo o comportamento social, psicologia infantil, tipos de educação, além do estudo dos movimentos de arte. São quatro anos e já estou no terceiro ano. Depois tenho que ver como incorporar isso tudo na sala de aula ou mesmo no pátio, que é onde normalmente as crianças aprendem na comunidade. Como tem estágio curricular com as crianças, a ideia é que eu faça na Ko’enju, em São Miguel, no Rio Grande do Sul, mas também realizar ações em escolas públicas e particulares.

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